"Não sou filho de um Deus menor. Tenho o mesmo direito de ser candidato"
Jorge Pinto, deputado eleito pelo Livre, apresentou a sua candidatura a Belém no sábado, e este domingo defendeu que foi “fiel aos seus princípios” até à “25.ª hora” e, não tendo aparecido uma “candidatura agregadora” à Esquerda, avançou na corrida.
“Eu sou a opção A, não sou a opção B. Fui muito fiel aos meus princípios. Durante meses, disse que queria que houvesse uma candidatura agregadora à Esquerda, para que a Esquerda pudesse voltar ao poder. Não era o plano A, era o plano que a Esquerda e o país necessitavam”, disse, em entrevista à CNN Portugal.
Não estamos nas Finanças, onde quem tira senha é atendido primeiro
Face à inexistência desta candidatura “agregadora”, o deputado eleito pelo círculo do Porto avançou, com 67% dos votos de militantes do Livre a responderem que o partido deveria apoiar a candidatura deste parlamentar.
O Livre oficializou hoje o apoio à candidatura presidencial do deputado Jorge Pinto, depois de uma consulta interna não vinculativa na qual o dirigente obteve 67% dos votos de militantes.
Lusa | 12:22 – 01/11/2025
O partido questionou também que candidatura de outra área política o Livre deveria apoiar, sendo o antigo líder do Partido Socialista (PS) António José Seguro o nome mais votado, mas 66,2% dos militantes optaram por não indicar qualquer outro nome. Confrontado com estes resultados, foi também questionado sobre uma eventual rejeição a esta candidatura, que o PS “teve de apoiar” dada alguma pressão, segundo defende.
“Não é por ele ter sido o primeiro a anunciar a sua candidatura que lhe dá prioridade sobre o que quer que seja. Na verdade, ele até teve bastante tempo para convencer os outros partidos de que poderia ser o candidato que agregaria as Esquerdas. Acho que é evidente hoje que ele não conseguiu fazer isso”, respondeu, depois de já no início da entrevista ter dito: “Não estamos numa repartição das Finanças, onde quem tira a primeira senha é atendido primeiro.”
Ainda quanto a Seguro, Jorge Pinto considerou: “Acho que é evidente que alguém que pede, em paralelo, que as Esquerdas se unam à sua volta e na mesma semana diz que não quer ser colocado numa gaveta ou ser considerado de Esquerda, é contraditório. Estas duas visões não podem coexistir. Quero ser muito claro, não vou esconder aquilo que sou. A Esquerda não é, nem nunca será uma gaveta, é uma janela que nos abre ao mundo. E eu sou, orgulhosamente, da Esquerda democrática.”
Depois de Seguro, a candidatura “plástica” e o “plano B”
Confrontando com uma eventual falta de apoio por parte do partido, Jorge Pinto disse que uma percentagem ‘elevada’ no que diz respeito ao apoio não acontece em tantos outros partidos (e não se referindo apenas ao PS). “Quem é o plano B é, por exemplo, João Cotrim Figueiredo, que foi literalmente o 2.º candidato a ser anunciado pela Iniciativa Liberal como candidato presidencial. Ele sim, pode ser o candidato B. Bom ou mau, não é isso que está em causa”, defendeu, referindo-se ao anúncio de Mariana Leitão para Belém, tendo a mesma depois sido eleita para a liderança do partido e se afastado da corrida: “Houve uma candidatura anunciada […], João Cotrim Figueiredo surge depois. Aí é um plano B.”
“Tenho 2/3 do meu partido a dizer que quer que eu seja candidato: Alguém acha que é uma percentagem?”, questionou, dizendo depois que o Livre é o “partido à Esquerda que mais cresce”.
“Venho para esta eleição porque estou muito farto de andar a reboque de qualquer ideia estapafúrdia que surja na cabeça de um outro candidato presidencial e que vai marcar o dia político”, afirmou, depois de falar da extrema-direita.
“O Livre, ou eu próprio, não precisa de pedir autorização a ninguém para existir e fazer a sua política. Eu não sou filho de um Deus menor. Tenho o mesmíssimo direito de ser candidato do que qualquer outro candidato de Esquerda ou Direita”, referiu, quando questionado sobre convergências à Esquerda, algo que considera “muito importante”.
Já quanto à possibilidade de em vez de agregar as Esquerdas, mas sim segregar este campo político e de dar força, indiretamente, a uma eventual 2.ª volta com forças de extrema-direita, disse: “Não acho que venha dividir. Acho que venho somar. Há uma boa parte do eleitorado que não sabia em quem votar e que não se revia em nenhuma das candidaturas. E que até possivelmente ia votar à Direita ou numa candidatura mais plástica, permitam-me assim, de [Henrique] Gouveia e Melo. Com a minha candidatura, quero falar a essas pessoas.”
Jorge Pinto falou não só em candidaturas particulares, mas também no geral. Sublinhando que “era ambicioso”, o candidato recordou as declarações que têm vindo a ser recentemente feitas pelos adversários. “O meu objetivo é ser a candidatura de Esquerda mais forte que possa passar à segunda volta. Acho que de todos sou quem mais quer passar à 2.ª volta e ser Presidente da República. Vejo alguns candidatos que parece que estão a marcar posições, outros que querem atenção mediática e visibilidade. Eu estou aqui para marcar agenda porque penso nas questões da República há muito tempo.”
A ‘jogada’ (e o “falhanço” de Marcelo)
Jorge Pinto foi ainda questionado sobre se levaria a campanha até ao fim ou se a possibilidade de apoiar uma outra candidatura existia. Lembrado que apresentou a sua ainda ontem e que seria “estranho” dizer 24 horas depois que ia desistir, garantiu: “Não vou dar respostas cabais.”
E foi esta também uma janela para, depois dos ‘ataques’ aos adversários, dirigir-se a quem ocupa o lugar para o qual quer ser eleito. “Acho que um dos grandes erros e falhanços de Marcelo Rebelo de Sousa enquanto Presidente da República foi ter feito afirmações demasiado cabais, que mais tarde o apanharam e o obrigaram a agir de uma maneira que ele se calhar não gostaria de ter agido. O que eu digo, muito claramente, é que vou levar um pacto republicano ao país, analisado pela outras candidaturas.”
Não se colocando – para já – “fora de jogo”, Jorge Pinto tem a jogada ou esquema tático montando. “Qualquer questão de convergência ou desistência tem de obedecer a duas condições absolutamente obrigatórias: a primeira é que seja para uma candidatura assumidamente de Esquerda, e a segunda, que me parece evidente, é que do outro lado haja o mesmo compromisso”, ou seja: “Se outros candidatos estariam dispostos a desistir, para fazerem convergência comigo.”
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