NACIONAL

ÂNGELO MBIÉ: Um professor à moda antiga

183

Veste a “camisola” de professor há 45 anos e fá-lo por amor à profissão. Destes, 36 foram passados entre quatro paredes de salas de aula de várias escolas primárias; e os restantes 9 – após a sua reforma – continuam a acontecer na sua residência debaixo de uma sombra improvisada com saco de licra, fixado entre troncos de uma mafureira e pilares do muro do seu quintal, que também serve de quadro durante as aulas. Apesar de leccionar no quintal, a disciplina, o rigor e paixão pelo que faz continuam intactos. Defende que um professor deve abraçar e caminhar com o aluno, mas também deve usar a varra, quando necessário. Um professor à moda antiga.

Mesmo no quintal, Ângelo Mbié mantém até hoje a sua postura pedagógica intacta. Está-lhe nas veias. Pela manhã, apruma-se e a bata branca de professor é a última peça que cela a indumentária, antes de receber os seus alunos às 7.00 horas, para mais um dia de aula e não de explicação. Assim defende ele: “Não consigo apenas esclarecer as dúvidas das crianças. Dou aula das 7.00 às 10.00 horas”, diz. O ambiente é humilde. Usou uma das paredes do muro do quintal e improvisou, com uma camada de cimento, três quadros. E colocou bancos longos para acomodar a pequenada. A cada dia da semana lecciona apenas uma disciplina. Conta hoje com mais de 30 alunos e muitos chegaram sem saber ler, escrever e fazer a tabuada. Hoje, quase todos sabem-no de cor e salteado.

Ao longo da conversa, o senhor professor mostra ser uma caixa de surpresas. Aos 64 anos, guarda na sua estante de livros o seu caderno de Português, da 3.a classe. Um dos sinais de que, de vez em quando, revisita nas suas memórias o Ângelo, aluno que estudou na Missão – Escola Primária Vila da Marinha – na década de 70, em KaTembe. Aliás, é no seu professor de língua portuguesa do primário que se inspirou para se tornar no professor que é hoje.

Natural da vila da Namaacha, na província de Maputo, entrou para a educação aos 18 anos, quando iniciava o Ensino Secundário, embora não estivesse nos seus planos. “Foi em 1981, quando estava na Namaacha a fazer o meu secundário. Certo dia, fui visitar a escola onde fiz o Ensino Primário, em KaTembe. Quando lá cheguei, um dos meus professores entregou-me uma bata e disse: ‘a partir de hoje, começas a dar aulas aqui na escola’. Fiquei chocado. Afirmou que me iria formar ali mesmo e que, semana seguinte, deveria começar. Fui para casa avisar à minha mãe”, recorda. Leia mais…

Artigos Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo